domingo, 23 de dezembro de 2007

Prólogo


Sentados à beira do meio-fio, reclamavam de suas malditas vidas.
− Desgraça. Tenho que trabalhar amanhã naquela merda de lanchonete.
− Vida fácil, a sua. Não precisa carregar sacos cheios de cimento dum caminhão pro outro. Minhas costas tão é fudidas.
Ao mesmo tempo em que carros passavam em alta velocidade, os dois fumavam como chaminés. Conversavam uma mistura de palavras e tosses.
− Esse show foi de fuder. Eu tava querendo espancar uns otários lá. Aqueles que passaram pela nossa frente com duas putas gostosas.
− Tô ligado.
− Pior foi a terceira briga. Quando quebraram a garrafa na cabeça do gringo. Respingou cachaça em mim!
− Tô ligado.
− Eu devia ter espancado esse também. Meu braço tá peguento feito a porra. Próxima vez vou meter o pau neles. Gasto uma grana do cacete pra comprar essa camisa gringa e aquele filho da puta me faz uma coisa dessas.
− A camisa é do Paraguai.
− Sim, meu irmão! Mas é importada, porra!
− Do Paraguai.
− Vai tomar no cu! Custou vinte conto essa desgraça. Tudo isso eu gasto num show desses e ainda sobra!
− Tô ligado.
Um carro a cento e quarenta quilômetros por hora passa pela rua - tão rápido que esvoaça a fumaceira dos dois rapazes sentados.
Da porta saem outras pessoas. Bêbadas e drogadas − ou drogadas e bêbadas. Pisavam falso e berravam risadas. O som do show ficou alto durante um momento e depois voltou a ser abafado pela porta que se fechou.
− Que é que tá rolando agora?
− Forró, pé de serra universitário. O baixista, eu conheço, tocava no palco principal da minha faculdade.
− Faculdade? Você fez faculdade? Há! Não me diga que pagou pra estudar!
− Que nada! Ganhei bolsas de estudo. Eu era um dos melhores estudantes no meu colégio público. Daí o diretor me fez essa proposta.
− Bela sorte a sua. Mesmo assim eu não faria. E como teria minha grana nisso? A faculdade bancaria meu almoço? Minha janta? Meus shows?
− Não, mas você poderia trabalhar à manhã e estudar na tarde.
− Eu trabalho o dia inteiro e ganho uma merda de salário. Imagina se fechasse meu turno apenas pala manhã? Nem vem.
Mais uma vez a porta se abre. Mais uma vez o som se esvai. Mais uma vez um carro passa, como uma rotina urbana de madrugada.
Dessa vez o som não é abafado.
− Vai lá! Eu lhe espero aqui.
Uma jovem de corpo definido desce as escadas do casarão e atravessa a rua, passando pelos rapazes. Vai até uma farmácia. Demora um pouco e depois sai com um saco pequeno na mão.
− Pegou tudo? − o homem que segurava a porta perguntou.
− Peguei. Toma o troco.
− Fique com o troco! Só quero isto. − pegou o saco da mão da garota, entrou com ela e fechou a porta. Daí então o som foi abafado novamente.
− Que coisa era aquela?
− Não sei, cara. Acho que eram alucinógenos medicinais ou alguma merda qualquer. Hoje em dia tão se drogando até com calmante.
− Tô falando da mulher, porra.
Nesse momento surge um carro conversível, cheio de mulheres. Para próximo à farmácia. Saem dois gringos do automóvel e voltam da farmácia com sacos cheios de preservativos e viagra. Entram rindo e sorrindo. Depois somem em alta velocidade.
− Não sei o que essas putas veem nesses otários. Só porque têm um carro de cem mil, dinheiro até pra enfiar no cu e uma oportunidade pra morar fora do país.
− É isso que elas veem neles.
− Um dia eu vou trabalhar como empresário, ganhar uma grana da porra e comprar o carro do ano. Aí vão vir um monte de gostosa pra cima de mim!
− E provavelmente eu, sentado num meio-fio como este, lhe chamaria de otário.
− Calma, velho! Você ia estar comigo também, brother. No carro!
− Legal. Seríamos dois otários.
− Meu irmão, tu é chato pra cacete viu! Me passa a outra carteira que a nossa acabou.
− Tenho não. A última foi esta. Você fumou duas lá no show!
− Que cu! Minha boca vai ficar seca agora!
− Bota palha nela que tranquiliza.
− Onde tu tá vendo palha aqui, desgraça?
− Do seu lado tem um vaso de samambaia. Pega umas folhas.
O rapaz olha pro lado, faz uma cara feia.
− Eu? Botar essas folhas na boca? Tenho cara de retardado, é? Além do mais devem estar todas mijadas.
− Você fuma maconha e reclama de colocar folha na boca.
− Maconha é maconha. Folha é folha, porra!
− Não. Maconha é folha. Mas folha pode não ser de maconha.
− Essa aqui é uma samambaia!
Pausa. Os dois se olham. Testas franzidas.
− Você é um cabeça de jegue mesmo.
− E você é um sunga branca.
A porta se abre. Aparecem outros dois rapazes. Um loiro, alto, pele avermelhada. Outro moreno, baixo, corpo forte e inchado.
− Qual foi, trutas? Tão fazendo o que aí fora? − pergunta o loiro.
− Bicho. Tamos fudidos aqui. Na quinta briga deram a porra dum chute na minha canela.
− Nessa hora eu me saí! − diz o moreno forte, sentando junto ao meio-fio também.
− Por quê? Você é uma bicha mesmo!
− Eu não. Tava sem saco pra ficar levando chute na canela, sabe...
Os quatro, sentados na beira do meio-fio, conversaram durante um longo tempo. Falavam de sexo, drogas e pagode. Contavam sobre várias brigas, vários shows, várias dopadas. A porta do casarão às vezes se abria, denunciando alguém saindo, nunca entrando. Carros em alta velocidade não paravam de passar, mas o recorde mesmo foi daquele que passou a cento e quarenta de quilometragem. A fumaceira do grupo acabou, porque a carteira acabou. De vez em quando uns jovens entravam na farmácia, compravam algo e saíam. Essa rotina durou um bom tempo, até o rapaz loiro se despedir.
− Pois é. Tô me indo agora. Pegar no batente amanhã às seis.
− Eu também, às oito. − responde o moreno.
− Vão passar pela avenida? Uma carona sairia bem agora.
− Pra mim também, se forem passar pelo campo da cidade.
− Vamos passar só pelo campo. A avenida fica do outro lado. − responde o loiro.
− Então beleza. Quer que a gente inteire seu táxi, sunga branca?
− Que nada, cabeça de jegue. Eu vou andando mesmo. Uma paletada, mas é melhor. Assim eu aproveito pra comprar meu café da manhã lá no mercado.
Os três se levantaram acenando pro rapaz.
− Falou, então. − diz o moreno.
− Vê se da próxima vez não cata a garota daquele gangster! O cara te ameaçou de morte, velho!
− Mas ele tava bêbado. E, além disso, aquele ali não mata ninguém. É só do tráfico, tá ligado?
− Tô ligado.
E saíram. Três prum lado. Um pro outro. Uma carteira de cigarros, latas de cerveja, garrafa de vodka, baseado de maconha, tudo no chão. A madrugada estava fria. Poucos carros passavam dessa vez. A brisa noturna derrubou uma das latinhas. Ela foi rolando, caiu do meio-fio, rolou de novo, chegou num bueiro e sumiu.
Sumiu.

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