− Uma caixa? Compra logo cinco nessa porra!
Ao telefone, Jota Pê programava assistir o jogo do Timbápue em sua casa.
− Velho, cinco caixas pra três pessoas? Você é maluco?
− Quatro pessoas. Eu, você, Breno e Preto.
− Preto vai? Ele não disse que ia assistir no Damasco?
− Sei lá, chama o cara de novo.
− Jota, vou comprar duas caixas só. Daqui a pouco tou chegando aí.
Sam desliga o telefone sem se despedir e procura a carteira. Depois de algumas gavetas reviradas, encontra-a na cabeceira da cama.
Domingo. Dia de jogo era sagrado para qualquer torcedor fanático do TFC (Timbápue Futebol Clube). Pela tevê ou no estádio, os quatro companheiros sempre – ou quase sempre – assistiam ao jogo juntos. Na verdade só viam pela tevê quando precisavam economizar dinheiro. Como agora.
Saindo de casa, Sam passou no armazém do lado de seu edifício e comprou duas caixas de Nova Schin em lata. No caminho do prédio de Jota, ele viu e ouviu diversos carros passarem buzinando, foliando, numa algazarra entorpecente. Os gritos dos torcedores do TFC que iam para o Damasco – estádio do Pedralima Futebol Clube – agitavam todo o bairro da Alvânea.
Era Timbápue contra Pedralima, ou seja, a Baixada Alvanesa contra os Mineiros. Todo o pessoal da baixada se deslocava ao estádio do Damasco. Este jogo clássico dos times mais fortes do estado explodia a cidade. Os dragões rubro-negros combatiam contra as toupeiras verdes.
− Chega mais, brother.
Jota abria a porta de sua casa.
− Nova Schin? Mentira, man. Puta que pariu! Não dava pra pegar Skol não, velho?
− Sairia cinco conto mais caro. Eu só tinha uns dois reais extras e o armazém não aceitava cartão. – Sam se defendia, colocando as caixas na cozinha. – Ta tudo quente, mas daqui a uns vinte minutos devem começar a gelar.
− Ótimo, o jogo começa daqui a dez minutos. Vou perder dez minutos de jogo tomando coca-cola e coçando o saco. – Disse Jota ironicamente.
Ouviram-se várias batidas na porta tocando um ritmo de pagode agitado. Ao abrir a porta, Breno entra no apartamento quarto e sala se jogando no sofá de Jota. Os três, dentro do recinto, usavam camisas do Timbápue, mas só Breno veio com camisa de material de torcida.
− Porra! De fuder essa camisa, man. Pegou onde?
− Um primo meu me deu. Serviu de boa em mim. – Breno se ajeitava melhor no sofá, tirando o volume do cabelo louro e liso do rosto. – Cadê Preto?
− Sam! Cê ligou pra Preto? – gritou Jota.
Na cozinha, Sam – que estava terminando de colocar as latas no congelador – sentiu uma pontada fina no estômago. Ele não tinha ligado pra Preto. O amigo tinha dito a Sam que ia assistir ao jogo no Damasco. Mas ele ficou de convencer Preto a assistir no apartamento de Jota com toda a velha guarda.
− Velho. Eu esqueci.
− Mentira, man. Porra. você é abestalhado mesmo, né?
Jota pegou o telefone na cômoda bagunçada da sala e discou o número do amigo.
− Cadê as cervas, Samuca? – Perguntou Breno, chamando Sam por um apelido menos usado pelo grupo.
Sam saiu da cozinha e sentou no sofá da sala ao lado de Breno.
− Tão quentes, ainda.
− Sabia que Edmundo nem vai jogar? – Breno puxava assunto.
− Oxe! Por que não?
− Tá na reserva. Nunca o vi não jogar como titular do time. Esse técnico é doente.
− Sem ele no ataque o Timbápue pára. Quem entrou no lugar?
− Nem sei. Na verdade isso é só boato que tão jogando por aí. Talvez nem seja fato.
Ao fundo, perto do quarto, ouvia-se Jota falando com Preto. Ele tentava convencê-lo a não assistir o jogo no Damasco, mas sim no apartamento.
Na tevê, passavam algumas propagandas de artigo esportivo que aproveitavam a data e o horário específico para divulgar seus produtos.
− Comprei uma chuteira nova. – Breno mudou de assunto.
− Aê! Finalmente, velho. Aquela vermelha tava toda fudida no seu pé.
− Acabou-se meu dinheiro do mês. – Breno e Sam riram alto.
− Velho, Preto não vem.
Jota já havia desligado o telefone e sentou-se no sofá com os amigos.
− Porra. Que mole do cara. Deve ser a primeira vez que a gente assiste a um jogo separados. – Breno lamentava.
− Começou!
Na tevê, começava a partida. O time rubro-negro do Timbápue tinha a posse de bola no meio do campo. Quando a contagem se iniciou, foi um show de passes tanto certos quanto errados. Mas nenhuma finalização, nem sequer uma falta ou saída na lateral. A primeira angústia só ocorreu quando um atacante do Pedralima correu veloz driblando os adversários, mas foi parado com um carrinho da defesa e errou a falta. O tédio provocado por passes e mais passes pendurou até meia hora de jogo.
− Porra. Namoral. Esse time não anda. – Resmungou Sam, levantando do sofá e indo pegar três cervejas no congelador.
− Claro! Sem Edmundo não tem como atacar. Esse técnico filho da puta é do tipo de segurar craque.
− Breno, Edmundo tem trinta e poucos anos. O cara cansa rápido pra porra. Perceba que em todo jogo ele só manda ver no primeiro tempo. O técnico fez certo em colocar ele pro segundo tempo. – Jota argumentou. Um dos únicos assuntos que Jota Pê se interessa em estudar de verdade é futebol.
− Êta, Porra!
− Fudeu!
Jota e Breno se levantaram rápido e ficaram em uma mistura entre em pé e sentado típica de torcedor angustiado. Sam veio correndo da cozinha, quase deixa cair uma cerveja.
Um atacante do Pedralima foi puxado enquanto corria à área do gol. Uma falta perto do goleiro do Timbápue era o que todo torcedor alvanês temia. Na televisão se ouvia: “Como um pênalti! Esta falta favorecendo o Pedralima é como um pênalti para o Timbápue! César ajeita a bola e se prepara para chutar. O goleiro ajeita a barreira e se prepara para defender!”.
O silêncio que se provocara no bairro foi tão ensurdecedor quanto no início do jogo.
O atacante do Pedralima afastara-se pra chutar.
Parou.
Correu.
Chutou.
Gol.
− Puta que pariu! Desgraça! Caralho!
− Filho da puta! Que miséria!
− Porra! Vá pra merda!
− Goleiro veado do caralho!
− César filho da puta. Tomar no cú viu!
− Desgraça, Samuel! Cê molhou minha perna toda de cerveja, filho da puta!
− Porra! Se esse técnico não colocar Edmundo no ataque agora eu enfio essa lata no cú dele. Caralho!
− Senta, porra. Sai da frente.
Todos se sentaram, mas dessa vez de um modo diferente: desleixados, jogados no sofá, com as latas pra fora do sofá (seguradas por dois dedos) e uma pálpebra mais caída que a outra. Apenas Jota ainda franzia a testa como se misturasse raiva e esperança.
Mesmo com este gol, o jogo continuou o mesmo: passes cá, passes lá. Nenhum técnico fez qualquer alteração. Um tiro de escanteio do Timbápue perdido foi o máximo de emoção que se teve até o fim do primeiro tempo.
− Odeio intervalos. – Exclamou Breno, indo pegar mais cerveja no congelador.
− Pega uma cerva pra mim aê.
− Pra mim também.
No sofá, Jota e Sam se entreolharam.
− Olha o que cê fez, idiota. – Jota apontou para o short molhado na perna direita.
Sam riu. Jota riu também.
− Vou mijar. – Samuel se levantou. – Cê já consertou a descarga?
− Não. É só tirar o tampão e puxar a corda, velho.
− Beleza.
Jota ficou sozinho no sofá. Até perceber que Breno estava demorando muito para pegar somente três cervejas.
− Breno? – gritou Jota Pê.
− Velho! Esses biscoitos aqui são bons pra porra! – respondeu Breno da cozinha.
− Traz pra cá, man. Vai acabar com tudo é?
Breno veio com um pote quase vazio (ou quase cheio) de negresco.
− Porra, velho. Tava cheia essa caceta aê. – Jota enfiou a mão no pote. – E cê nem trouxe as cervas, né? Todo abestalhado.
− Cadê Sam?
− Foi mijar.
− Cê consertou a descarga?
− NÃO!
Ouve-se um barulho de descarga. Sam vem do banheiro consertando o short.
− Véi! Véi! Pega as cervejas lá na cozinha!
− Pega lá! Pega lá!
Meio espantado, Samuel pára e vai à cozinha.
− Rápido que já começou!
A posse de bola no início do segundo tempo era do Pedralima. Jota e Breno disputavam o número de biscoitos. Sam voltara da cozinha logo quando o Breno havia pegado o último do pote. Parou na frente dos dois antes de sentar-se no sofá.
− Porra é essa? Não deixaram nenhum pra mim, né? Que mole, velho.
− Breno comeu tudo.
− Comi mesmo. Se foda. Sai da frente.
Sam deu as cervejas para os dois, mesmo se sentindo injustiçado. Sentou-se no sofá do lado de Jota.
O segundo tempo começou muito mais emocionante. Era perceptível a garra que os jogadores tanto do Timbápue quanto do Pedralima jogavam agora. Com passes mais enfiados e chutes a gol, mesmo de longe (até mesmo do meio de campo), a partida acelerou o coração dos torcedores. Breno, com as mãos fechadas em cima do joelho, suava frio. João Paulo, com os pés batendo no chão freneticamente, demonstrava ansiedade. Samuel, de boca aberta, parado feito uma estátua, esbugalhava os olhos sempre que ficava angustiado.
− Finalmente!
Um atacante do timbápue levou cartão amarelo e foi substituído por Edmundo logo depois. Breno deu um sorriso de canto de boca e bateu com as mãos fechadas nos joelhos.
Pela janela ouviam-se gritos da torcida alvanesa do Timbápue. Edmundo era como um ídolo para todo torcedor alvanês da época. Neste campeonato estadual ele era o artilheiro mais consagrado. Negão careca e de cavanhaque: seu estilo sério e irônico transformava qualquer jogo em um espetáculo (é claro, com ajuda de seus gols sempre chutados a centenas de quilômetros por hora).
− Preto deve estar vibrando lá no Damasco. – pensou alto, Sam.
− Têm quantas cervejas ainda?
− Umas quatro, acho. – respondeu Sam, à pergunta de Jota.
− Breno, pegue lá o resto.
− Oxe! Por que eu?
− Por que cê comeu todos os biscoitos.
Breno resmungou algo inaudível. Levantou-se apressado e voltou da cozinha rápido para não perder um sequer minuto de Edmundo no jogo.
O segundo tempo estava muito emocionante, principalmente agora com Edmundo no ataque. Mas nenhum gol saía. Chutes vinham de todos os cantos e não balançavam a rede em nenhum momento (a não ser por fora). A marcação era pesada, diversas faltas foram provocadas, mas nenhum cartão vermelho por enquanto.
− Vai, vai, vai!
Os três gritaram esta frase clássica. Túlio Ribeiro, meio-campo do Timbápue avançava rapidamente na área do Pedralima.
− Lança pra Edmundo!
Como palavra mágica, Túlio driblou um lateral adversário e lançou uma bola enfiada para Edmundo na cara do gol. Apenas um zagueiro e o goleiro estavam na frente, mas, como de praxe, um chute fortíssimo, praticamente na linha de pênalti, partiu dos pés do artilheiro às redes brancas do gol adversário.
− Goooooooooooooooooooooooool!
− Puta que pariu! Desgraça! Caralho!
− Filho da puta! Que miséria!
− Porra! Vá pra merda!
− Tomar no cú! Caralho!
− “Simbora minha jhonga!” caceta!
Os três pularam juntos, se abraçando e gritando juntamente com todo o bairro da Alvânea. Gotas de cerveja molharam a sala toda, inclusive o sofá, mas Jota (dono da casa) pouco se importava. Qualquer gol do Timbápue era como ganhar na loteria para os quatro amigos. Todos se sentaram felizes no sofá e mais ansiosos ainda. Um empate no meio do segundo tempo, para qualquer torcedor de qualquer time em qualquer jogo, é o mais emocionante, por que mistura esperança com medo, angústia com felicidade e atenção com diversão. O pior nesta hora é que, quando os torcedores estão bebendo, o organismo humano pede renovação da composição sanguínea juntamente com a rápida circulação provocada pelos batimentos acelerados do coração, ou seja:
− Caralho. Quero mijar.
− Nem me fale, tou me segurando aqui.
Dessa vez todos os amigos batiam as pernas freneticamente, mas em nenhum momento desviavam a atenção da televisão. Podiam até desviar os pensamentos. A cena atual, por exemplo, era de um meio-campo do Pedralima cobrando a lateral perto da área do Timbápue: Jota, em pensamento, fingia-se de técnico planejando um modo de roubar a bola do time adversário usando jogadores específicos; Sam, no pensamento, fingia-se de mago repetindo a frase “a bola vai cair nos pés do zagueiro do TFC” a cada segundo; Breno, no pensamento, fingia-se de estilista escolhendo um design melhor para a camisa rubro-negra do seu time.
O jogo seguia desesperador. Já eram quarenta e cinco minutos do segundo tempo. Com um acréscimo razoável de dois minutos, a partida se tornou angustiante. Um ataque cá, outro lá. Até que um meio-campo do Pedralima avançou sozinho na lateral adversária. Seguiu correndo para cruzar.
Cruzamento.
Cabeceio.
Travessão.
Pés.
Atacante.
Zagueiro.
Drible.
Passe.
Puxão.
Queda.
Pênalti.
− Porra! Caralho! Cacete! Desgraça! Puta que pariu! Buceta!
− Filho da puta! Que miséria!
− Porra! Vá pra merda!
− Atacante veado do caralho!
− Juíz Filho da puta. Tomar no cú viu!
− Agora fudeu.
O goleiro do Timbápue já era fraco com faltas perto da área, pior agora com um pênalti na cara do gol.
Os amigos esmurraram porta, parede, cômoda e até mesmo eles próprios. Jota passou a mão no rosto, descendo até o queixo. Breno gritou da janela vários palavrões juntamente com o bairro inteiro. Sam fez algumas caretas como se estivesse enfiando agulhas no nariz.
− Se esse goleiro defender, juro que tiro a roupa e saio pelado pelo bairro, – prometeu Jota. – aliás, saio pelado se, além de defender, o Timbápue fizer um gol de contra-ataque.
− Faço o mesmo.
− Eu também.
Todos os três voltaram para o sofá e franziram a testa. A vontade de mijar passou instantaneamente e foi substituída por uma vontade de rezar. Era sempre assim: com o time ganhando, todos eles cantavam palavrões e oravam para tudo que é, mas na hora da angústia de perda, se tivesse uma estatueta de santo já estavam segurando-a e rezando para qualquer deus de toda religião possível.
Mauro Silva, o melhor atacante do Pedralima ia bater. Ajeitou a bola na marcação de pênalti e deu alguns poucos passos para trás.
TFC e Pedralima lideravam o campeonato. O Timbápue estava na primeira colocação e mesmo que perdessem este jogo continuariam em primeiro. Mas se a emoção do futebol fosse movida apenas de partidas decisivas, não haveriam corações acelerados na maioria dos jogos. Principalmente por parte da Baixada Alvanesa.
Mauro Silva parou, correu.
Um chute leve para o meio e o goleiro para o lado esquerdo: Gol.
− Porra! Caralho! Cacete! Desgraça! Puta que pariu! Buceta!
− Puta que pariu! Desgraça! Caralho!
− Filho da puta! Que miséria!
− Porra! Vá pra merda!
− Goleiro veado do caralho!
− Mauro Silva filho da puta. Tomar no cú viu!
Os amigos esmurraram tudo o que viram pela frente. No bairro só se ouviam os palavrões da torcida que, em sua maioria, era rubro-negra.
A partida durou ainda cinco segundos até o juiz apitar fim de jogo.
− Desgraça!
− Ainda bem que continuamos em primeiro no campeonato. – Sam aliviou a raiva.
− Porra! – Jota desligou a tevê com um empurrão forte no botão. – Arrumem essa caceta aqui.
− Breno e Sam ajudaram João a colocar as latas no lixo, forrar o sofá, limpar o chão, ajeitar as cômodas e colocar o pote vazio na cozinha.
O celular de Breno tocou.
− Peraê. – O loiro pegou o aparelho de cima da própria carteira e verificou quem estava ligando. – Oxe. É Preto.
− Atende aê. Ele deve estar vindo pra cá. Sei lá. – Disse Jota, jogando as latas no lixo.
− Alô! E aí, Negão? Partida fudida, né?
Breno franziu a testa.
− Hã?
Breno esbugalhou os olhos.
− Mentira!
Breno desligou o celular.
− Fudeu, galera.
− Qual foi?
− Prenderam Preto.
A um Fio do Fim
1 mês atrás
